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Antes da vida seguinte

Celso Martins

Como fotografar o silêncio? Como fotografar o invisível ou o velado? Desde que há fotografia – melhor seria dizer, desde que há imagem – que o problema se põe. seja porque o que está em causa são conceitos e não realidades tangíveis, seja porque essas realidades se furta absolutamente ao olhar da câmara.
A violência doméstica, entendida como fenómeno alargado, é um destes casos.
É omnipresente em todas as sociedades, mas invisível. É ilegal (é mesmo um crime público) na nossa, mas resistente à sanção social e à lei.
O que é novo na modernidade não é a violência, mas, por um lado a natureza dessa violência e, por outro, o modo como a vemos e a enquadramos entre o espaço público e privado.
O seu território, o seu capital de impunidade é precisamente esse círculo fechado que constitui a privacidade, que deixa à porta o estado, as leis, a urbanidade exigível aos comportamentos.
Se essa condição coloca grandes dificuldades à intervenção da lei, é igualmente pouco permeável a um olhar exterior, documental, sobre elas.
Claro que o fotógrafo pode captar os efeitos visíveis dessa violência. Olhos negros, caras inchadas, membros fracturados. O choque do observador é garantido. Mas o que retemos dessa evidência dolorosa que já não estivesse connosco antes?
Talvez a questão não seja a de testemunhar através da imagem ou de “fazer prova” dos acontecimentos. A dimensão testemunhal da fotografia pode ser mais ampla e mais complexa mas, simultaneamente, mais deferida.
Este alargado conjunto de imagens que traz o título genérico “Olha” resulta de uma visita continuada que Valter Vinagre realizou ao mundo obscuro mas múltiplo da violência doméstica.
Como em várias séries anteriores, o título vem carregado de uma ambiguidade produtiva ou pelo menos de uma polissemia que nos ajuda, precisamente, a situar o problema na sua existência prismada.
É um apelo e um programa de reconhecimento em relação a um problema que vive das sombras que sobre ele se projectam. Mas também pode ser lido como uma exclamação agressiva, daquelas que antecedem a própria violência.
Como já havia acontecido antes, na série “Olha” as imagens são o que fica de uma relação lenta, demorada, com uma realidade ou fenómeno social com os quais o fotógrafo se implica. essa metodologia permite-lhe ser o destinatário de um sem número de histórias que alargam profundamente a compreensão do que observa, bem para além da centralidade de um tema ou de um assunto.
Escutando relatos, experimentando os espaços, aproximando-se da envolvência de cada caso, Vinagre acerca-se de forma múltipla de um fenómeno social total como a violência doméstica em que dimensões sociais, económicas, culturais e até politicas se entrelaçam. E é essa aproximação múltipla, essa percepção da densidade e delicadeza do fenómeno em causa que o afasta definitivamente de uma abordagem óbvia.
O que ele fotografa não é exactamente o que nos conduz ao cerne da questão. Até porque um assunto como a violência doméstica não tem um centro. Envolve diferentes e inusitados actores, papéis inesperados, circunstâncias várias que destoam do estereótipo do homem que bate na mulher.

O que Vinagre estabelece com estas imagens é uma rede de indícios que abrem fissuras no manto de segredo da violência doméstica e, se não escancaram o que ele viu, iniciam um processo de desocultação.
Se não são exactamente ficcionais, porque não partem de um princípio de extrapolação do real, também o seu carácter documental deve ser contextualizado e assumido como necessariamente intermitente. Trata-se de ver o possível, de dar a ver o aceitável.
Como que seguindo o próprio carácter velado dos acontecimentos e das situações, estas imagens não nos remetem para nenhuma relação de causalidade imediata. são vestígios de histórias de vida, uns mais abertos, outros buscando dimensões mais íntimas que permanecerão sempre relativamente ocultas ao observador.
Um dos aspectos mais relevantes desta série prende-se com o facto de ela ser extremamente exemplar quanto á possibilidade de uma determinada realidade material ser profundamente evocativa da realidade social que lhe está associada.
Um boneco que jaz sobre uma cama sinalizando a presença de crianças; uma tábua de engomar gasta pelo uso; camas desfeitas; relógios; malas, encostadas a uma parede num abrigo, que nunca nos dizem se partem ou se chegam e, depois, de um modo mais grave, facas que ameaçaram pessoas mas que nunca abandonaram o seu lugar na cozinha. estes objectos não são símbolos, nem metáforas, ao mesmo tempo, não cometem inconfidências intrusivas. Conduzem-nos por um labirinto de sinais, de histórias fragmentárias que ora revelam, ora ocultam. Nessa medida, estas imagens falam à nossa experiência e exigem a nossa empatia.
Elas convocam uma certa participação do espectador, também da sua própria história de vida, para ligar os fios, criar nexos de compreensão.
Não porque precisemos de ter vivido situações semelhantes para nos relacionarmos com elas, mas porque elas nos remetem para experiências simultaneamente abstractas e universais de solidão, dor, conflito e desespero.
Ao mesmo tempo, também a linguagem possui um lugar muito especial no dialecto visual do silêncio e do segredo que estas imagens erguem. As palavras estão por todo lado nas fotografias de “Olha”, mas o seu poder evocativo não se restringe ao que dizem. São palavras dentro de imagens, imagens de palavras. Nessa medida, são palavras em situação e é no interior de cada situação que elas falam para além das coisas que dizem.Estão nos recipientes das casas de abrigo sinalizando os nomes das mulheres e o que resta da sua individualidade; estão nos cadernos onde se relatam as agressões físicas e psicológicas, com seu cortejo de insultos; vêm juntar-se aos desenhos fantasmáticos das crianças ou latejam nas paredes que um filho pichou de impropérios dirigidos à mãe depois de lhe esvaziar a casa.
Por fim os espaços. Muitas destas imagens foram captadas nas casas-abrigo que albergam as vítimas quando estas se vêem forçadas a abandonar as suas casas. Nas suas condições físicas, nos códigos comportamentais que exigem, estes espaços são uma alternativa possível mas tran- sitória para um lugar de incerteza. essa incerteza inscreve-se na vivência do próprio espaço. A desarrumação no interior dos quartos, contrasta com a disciplina dos espaços comuns naquilo que é uma imagem significativa para estas vidas desarrumadas à procura de um reinício e de uma reordenação. O silêncio e a penumbra feitos de luzes baixas, de recortes melancólicos definem um estado de ressaca que atinge todos os personagens destas fotografias. Não se trata de um olhar dominado a priori pelo pessimismo, mas do simples facto de que o tempo e o espaço das pessoas que habitam estas imagens ser um ponto de viragem, um limbo acolhedor e quente, mas um limbo.
Noutros casos, paradoxalmente, é a abstracção a melhor forma de chamar a realidade como na imagem em que vemos um sinal de trânsito de perigos vários tombado no chão. Poucos assuntos podiam ser menos atraentes e mais destituídos de glamour e de fotogenia como a vida das pessoas vítimas de violência. O circuito mediático guarda-as normal- mente para encarniçar em nós a faceta humanista que todos julgamos ter. A serenidade cúmplice das imagens de Valter Vinagre recusa liminarmente essa parasitagem. No fundo elas dizem uma só coisa de diferentes maneiras. Olha. Compreende o que puderes. Se puderes. E age. Se puderes.

Celso Martins