Paixão

TextoSobre “Paixão” de Valter Vinagre

Enigma e ensaio de decifração – Orlando Garcia

O título que o Valter dá a esta exposição (esta série de 18 fotografias) intriga-me. Porquê Paixão ? Num seu depoimento, ele dá-nos pistas: infância, alegria, luz, fantasia. O mundo transformado em domingo feliz. E subliminarmente está lá o Brasil, esse mirambolante umbigo tropical. E tudo se passa num universo reservado e concentrado, com passe de acesso, numa viagem espantada de um muro a uma tenda de circo. Deve ser nestes terrenos que devo procurar as conexões.

Centro-me nas fotografias: limpas, directas, enxutas, a preto e branco. Artesanais por coerência com a acção. Todos em exercício, inclusive o fotógrafo. Movimentos em todas as direcções. Do fabril ao circense: adivinha-se ali uma reciclagem. O circo a aprender, a fabricar, a laborar, a ensinar …

Escolho a minha fotografia matricial da série. Opto pela fotografia dos graffitis e do arame, fixação do efémero, padrão e registo. Representação e dispositivo. Pano de fundo dos artistas operários que povoam todas as outras fotografias. Oscilei entre essa e a que apelido de “casulo”: o artista na sua solidão, suspenso nos panos e na luz, fixado na sua, e nossa, cosmogenia. Fralda e útero. O centro do mundo. O mundo em suspenso. Julgo perceber que se trata da escolha (simbólica) do próprio fotógrafo, embalado na dedução da sua inclusão em “Húmus”, essa outra sua série reflexiva, metafórica e antropológica. Neste conjunto, estas duas fotografias constituíram-se nos meus pólos de equilíbrio, referenciação e especulação, aquelas imagens em que me é mais intenso o jogo entre valor estético e valor social.

As restantes 16 percepciono-as como bloco de notas visual, de observação e testemunho. Disparos rápidos, experienciais, a captar o momento, a cristalizar o movimento, numa interactividade performativa. Está lá a empatia e todas estão carregadas de humanidade. Estão lá as pessoas nas suas duplicidades de anjos, acrobatas e artistas. Vislumbramos-lhes as felicidades compenetradas. Trabalham, treinam, exercitam, controlam, corrigem, insistem, insistem …

Preciso de as percorrer, da primeira à ultima e, outra vez, da última para a primeira. E mais uma vez e outra ainda. O Valter obriga-me a um jogo de coerência enquanto receptor deste encadeamento de imagens para-normais e geradoras de energia. Depois preciso de ir reparar nas pessoas e lá vou de fotografia em fotografia, olhar para as caras, para as figuras, para as posturas. Ponho-me a imaginar e a deduzir. O que mais me impressiona é o que se adivinha como denominador-comum: concentração e deliberação. O chamado “empowerment” no seu expoente máximo. E lá vou percorrer outra vez todas porque quero apanhar a ambiência. O Valter está a proporcionar-nos uma incursão num universo que nos estimula a questionar a vida de uma forma poética. Por isso deambulo nas minhas duas referenciais: o arame e o casulo.

Mas, finalmente, porquê “Paixão” ? Por ser intensa, perigosa, efémera ? Não deve ser pelo lado possessivo, obsessivo, compulsivo, tempestuoso. É que esse é o lado transtornado. Mas talvez possa ser pelo exacerbamento e exclusividade. O factor institivo também pode estar aqui subjacente. Sim, o mais provável é que tenha a ver com movimento e duplicidade. Já sei: é por causa do desencadeamento de admiração e espanto. É por causa da emoção do tudo pode acontecer e das disposições que isso desencadeia.